Entenda por que há tanta confusão sobre os números da zika

Gerardo Lissardy
No Rio
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  • James Gathany/Centers for Disease Control and Prevention/AP
    Mosquito fêmea do Aedes aegypti
    Mosquito fêmea do Aedes aegypti
Quantas pessoas tiveram zika no Brasil? Quantos casos de microcefalia foram registrados? Na batalha contra o pouco conhecido vírus da zika, autoridades e especialistas admitem que ainda não têm respostas precisas para muitas questões básicas.

Essa dificuldade aparece nos números oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde. As estimativas são de que, no ano passado, pode ter havido, aproximadamente, entre 500 mil e 1,5 milhão de casos de zika no país.

Isso significa dizer que há cerca de 1 milhão de pessoas que podem ter tido o vírus... ou não.

No boletim do ministério divulgado no dia 22, a pasta admite que "é impossível saber o número real de infecções pelo vírus zika" e cita limitações para isso.

Na quarta-feira, o ministério emitiu comunicado que deixou perguntas em aberto sobre microcefalia.

O boletim diz que foram notificados 4.180 casos suspeitos de microcefalia registrados até 23 de janeiro, um aumento de 7% em relação à semana anterior.

Até o momento, 462 casos foram descartados e 270 confirmados -- um número bem maior que os 150 casos que o Brasil registrava em 2014.

O mesmo relatório diz que, do total de casos suspeitos, já foram confirmados que seis estão ligados ao zika.

Segundo o Ministério da Saúde, todos os bebês que tiverem confirmação de microcefalia infecciosa serão testados para saber se há relação com o zika.

Já entre os casos descartados até o momento estão aqueles que apresentaram exames normais, os que a medição do perímetro encefálico não correspondia ao que é considerado microcefalia e os que têm microcefalia devido a causas não infecciosas.

Consumo de drogas pela mãe e radiação, por exemplo, podem provocar microcefalia no feto.

Além disso, até o número de bebês nascidos com microcefalia nos anos anteriores, que serve para comparação, pode estar subestimado, devido à subnotificação.

As autoridades sanitárias e os especialistas destacam que é difícil estabelecer a magnitude da doença.

Em primeiro lugar, o ministério explica que cerca de oito em cada dez infectados não têm sintomas.

Desta forma, a maioria das pessoas que contrai zika melhora sem que seus casos sejam registrados em médicos.

Além disso, falta um exame que possa detectar com eficácia quantas pessoas foram infectadas.

O principal teste que o Brasil usa para zika é de biologia molecular, que só funciona nos cinco ou seis primeiros dias de infecção, na fase aguda da doença, quando o vírus ainda circula no sangue.

O governo anunciou que, nas próximas semanas, distribuirá 500 mil destes testes. Isso ampliará a capacidade dos laboratórios, que passarão de mil para 20 mil diagnósticos mensais.

Mas depois dos primeiros seis dias, o organismo começa a produzir anticorpos que dificultam a detecção por esse método, que também diagnostica dengue e chikungunya.

Isso significa que, dos 20% de infectados com zika que têm sintomas da doença, nem todos darão positivo no teste: se os pacientes demorarem para ir ao médico, o resultado será negativo.

Uma forma mais eficiente de confirmar casos de zika seria por um exame sorológico que identificasse especificamente anticorpos de zika, que permanecem mais tempo no sangue.

Mas esse teste ainda está sendo desenvolvido em laboratórios para que possa ser aplicado em escala comercial, o que o Ministério da Saúde espera que ocorra logo.

"Pretendemos começar os testes em fevereiro", disse a sua assessoria de imprensa.

Mais microcefalia?

Sobre a microcefalia, o ministério explica que essa anomalia pode ser causada por outros agentes infecciosos que não o zika, como a sífilis, rubéola e toxoplasmose.

O governo diz que o número de casos de microcefalia relacionados ao zika pode ser muito maior do que os seis confirmados oficialmente.

"Uma doença não exclui a outra na questão da microcefalia: a gestante pode ter tido sífilis e zika durante a gestação", disse a assessoria do órgão.

O vínculo entre zika e microcefalia ainda é motivo de investigação, ainda que especialistas acreditem que há provas que apontem diretamente para isso, incluindo um estudo do Instituto Carlos Chagas (Fiocruz Paraná) e da PUC-PR que confirmou que o vírus da zika consegue atravessar a placenta durante a gestação.

Mas um estudo do ECLAMC (Estudo Colaborativo de Malformações Congênitas) publicado na revista Nature traz a hipótese de que o aumento de casos suspeitos de microcefalia seja uma consequência do alerta causado pelo zika no Brasil, sem que uma variação tão grande de fato tenha ocorrido.

O informe de Jorge Lopez-Camelo e Ieda Maria Orioli afirma que talvez o número haja crescido porque houve uma busca mais ativa de casos no Nordeste, onde antes eles eram subestimados, assim como uma melhora dos meios de notificação de suspeitas.

'Guerra'

Apesar disso, outros especialistas estão convencidos de que o aumento de casos possíveis de microcefalia de um ano para o outro pode ser explicado pelo zika.

Além da falta de exames eficientes para detectar melhor os infectados e descobrir, por exemplo, a porcentagem de mulheres grávidas que transmitem o zika para o feto, alguns assinalam que parte do problema é a resposta do governo à crise

"É inaceitável que o vírus esteja circulando no Brasil há nove meses, pelo menos, ou mais tempo, provavelmente, e não tenhamos um teste para saber a dimensão real do problema", disse o infectologista Artur Timerman.

"Até setembro ou outubro houve negligência sobre a importância do zika no Brasil e por isso a pesquisa básica atrasou seis meses."

Presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose, Timerman sustenta que "a saúde é a área que sofreu o maior impacto da grande crise econômica e política no Brasil".

A polêmica foi alimentada pelo próprio ministro da Saúde, Marcelo Castro, alçado ao posto em outubro durante uma negociação da presidente Dilma Rousseff para dar mais espaço ao PMDB e tentar evitar o processo de impeachment.

"Há cerca de 30 anos o mosquito vem transmitindo doenças para nossa população e desde então nós o combatemos, mas estamos perdendo a guerra contra Aedes aegypti", disse.

Nesta sexta-feira, Dilma acabou dando declaração semelhante. "Enquanto o mosquito se reproduzir, todos nós estamos perdendo a luta contra o mosquito", disse.

Com informações da BBC Brasil em São Paulo e Londres

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