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domingo, 27 de março de 2016

S.O.S ZIKA E MICROCEFALIA - RELEMBRANDO CASO INTERESSANTE: "IRMÃOS GÊMEOS NASCIDOS EM DEZEMBRO DE 2015, UM TEM MICROCEFALIA E OUTRO É SAUDÁVEL". Veja matéria


    Gêmeo com irmão saudável foi 'paciente zero' em epidemia de microcefalia, diz médica

    • 4 dezembro 2015
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    ThinkstockImage copyrightThinkstock
    Image captionCaso de gêmeos deu início à investigação que revelou ligação entre zika e microcefalia
    Um caso de gêmeos em que um dos bebês nasceu normal e o outro com sequelas de uma infecção deu início à investigação que descobriu a epidemia de microcefalia que já está em 14 Estados do Brasil.
    A criança é paciente da neuropediatra pernambucana Vanessa van der Linden Mota, que alertou outros colegas e a Secretaria de Saúde de Pernambuco em agosto sobre o aumento no número de ocorrências da má-formação.
    "Eu o atendi no início de agosto (os gêmeos nasceram em julho). O irmão dele nasceu saudável, mas ele tinha uma microcefalia bem grave. Fizemos uma tomografia e ela tinha características de infecção congênita — quando o bebê é afetado por uma infecção na mãe", disse à BBC Brasil.
    "Comecei a investigar os principais vírus que podem causar infecções congênitas, mas todos os exames foram normais. Pedi, então, para a doutora Regina Coeli (infectologista no Hospital Universitário Oswaldo Cruz) reavaliar o caso."
    "Já estávamos investigando a genética da criança quando, no meio de setembro, comecei a ver casos de microcefalia no Hospital Barão de Lucena (em Recife), onde trabalho. Cheguei um dia e havia três bebês com o problema na UTI, com características de infecção também. Na semana seguinte, havia mais dois", lembra.
    BBC
    Image captionPaciente zero de epidemia foi atendido em agosto
    "No dia seguinte, minha mãe, que é neuropediatra no IMIP (Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira), me disse que havia sete pacientes internados com microcefalia. Aí eu pensei: 'tem alguma coisa errada'."

    Investigação

    Ao se depararem com os casos, as médicas buscaram possíveis conexões com o citomegalovírus e doenças como sífilis, toxoplasmose e rubéola, que costumam ser responsáveis por alguns dos casos de microcefalia. Nenhum traço das doenças, no entanto, foi encontrado nos exames dos bebês nem das mães.
    Foi então que, no fim de setembro, Vanessa levou o caso ao secretário de saúde do Estado, e criou-se uma equipe para entender o que estava acontecendo.
    "O que era interessante é que as tomografias deles não eram tão semelhantes ao que costumamos ver em casos de infecções congênitas comuns. Parecia um agente novo", conta.
    Um levantamento de casos em maternidades de Recife revelou um número atípico de notificações de bebês com o perímetro cefálico (medida da circunferência da cabeça do bebê em sua parte maior) menor do que 33 cm (o normal para um recém-nascido é de 34 cm a 37 cm).
    No interior do Estado, o aumento de ocorrências também já causava estranheza. No fim de outubro, o Pernambuco alertou o Ministério da Saúde sobre o problema.
    Até o dia 28 de novembro, foram notificados 1.248 casos em 14 Estados — 646 deles só em Pernambuco.

    Relação com a zika

    BBC
    Image captionNeuropediatra Vanessa Van Der Linden Mota e a mãe, que também é médica, começaram a notar os primeiros casos e alertar colegas (Foto: BBC)
    A neuropediatra descobriu que, assim como a mãe dos gêmeos, outras mulheres tiveram algum tipo exantema (erupções vermelhas na pele) no início da gravidez, entre o primeiro e o quarto mês. A partir desta informação, levantou-se a possibilidade de investigar uma possível relação com a zika e com a febre chikungunya, doenças "primas" da dengue que podem causar este sintoma.
    "Os exames que fizemos nos recém-nascidos (buscando o vírus da zika ou o da chikungunya) deram normais, provavelmente porque a doença não dura muito tempo e, como eles tiveram a infecção no início da gestação, já tinha saído do organismo", diz.
    Neste momento, a obstetra paraibana Adriana Melo começou a acompanhar as notícias e relacionou o que acontecia no Estado vizinho com os casos de duas de suas pacientes.
    Elas tinham bebês com microcefalia, detectada ainda na ultrassonografia e também haviam tido a mesma vermelhidão durante os primeiros meses.
    "Ela colheu o líquido amniótico das pacientes e mandou para o Rio de Janeiro, para a análise da Fiocruz. Aí foi encontrado o material genético vírus", conta Vanessa.
    "No dia 28 de novembro, o Ministério da Saúde confirmou a relação entre o zika vírus e o surto de microcefalia."

    Desafio, e não tristeza

    Para o pai dos gêmeos, P.J. (que pediu que a identidade da família fosse protegida), a descoberta de que o caso de seu filho não era isolado ajudou a amenizar o "baque" inicial.
    "Eu estava focado apenas em ajudar minha esposa porque para ela foi um baque. Mas quando descobri que aquela situação iria para a mídia, para os congressos de Medicina, comecei a pensar no impacto disso para as pessoas", disse a BBC Brasil, em entrevista por telefone.
    "Aí me lembrei que, em dezembro, quando ela teve essa vermelhidão no corpo, minha cidade, no sertão de Pernambuco, era uma das que tiveram mais casos de dengue no Estado. Aí bate aquele sentimento: 'Poxa, a gente podia ter evitado'."
    Foto: Edmar Melo | JC ImagemImage copyrightEdmar Melo JC IMagem
    Image captionTomografias de bebês afetados revelam 'cicatrizes' deixadas por infecção no cérebro
    Alterações no bebê foram diagnosticadas já aos três meses de gravidez. Mas só no sétimo mês, e após diversos exames, os pais tiveram a confirmação de que se tratava de microcefalia.
    "A médica nos disse: 'Ele é um bebê viável, mas pode ser que não ande no tempo que vocês esperam e não fale no tempo que vocês esperam. Mas ele vai fazer tudo isso por causa dos estímulos que vocês precisarão dar'."
    "Mas depois que ele nasceu, começamos a identificar problemas e a doutora Vanessa nos contou o que a medicina falava sobre a microcefalia. Desaba o mundo sobre você, por causa das possibilidades. Aquilo era algo com o qual íamos ter muito trabalho", disse à BBC Brasil.
    O garoto nasceu com um perímetro cefálico de 27 cm, mas, segundo o pai, está evoluindo bem. "Já sabemos que ele tem um problema visual, já usa óculos para miopia, e estamos monitorando sua audição. Mas ele está engordando, crescendo. Deixou de parecer um bebê com a cabeça pequena."
    Agora, ele diz querer ajudar outras famílias que também tiveram filhos na mesma situação nos últimos meses. "Para mim é uma terapia também."
    "Já estou em contato com outros pais e quero fazer um blog sobre o assunto. Só não fiz ainda porque estou esperando minha esposa se recuperar da notícia."
    "Não estou encarando com tristeza, mas como um desafio. Vamos ter forças para fazer o que estiver ao nosso alcance por ele."

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